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Artistas brigam para manter peça censurada no Festival de Garanhuns

AGRESTE

Por: em 03/07/2018 às 00h59 atualizado em 03/07/2018 às 00h59

A polêmica envolvendo a peça teatral “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” segue dividindo opiniões em Pernambuco. A celeuma começou na última sexta-feira, quando o prefeito de Garanhuns, Izaías Régis, pediu ao secretário estadual de Cultura, Marcelino Granja, para retirar a peça do 28º Festival de Inverno do município, que começa em 19 de julho.

Foto: Leonardo Pastor/Divulgação

Na sequência, ao ouvir que a peça seria mantida, ele comunicou que não cederia o Centro Cultural de Garanhuns para a apresentação. No sábado (30), após movimentação nas redes sociais e campanha acirrada por parte de dirigentes evangélicos, entre eles o deputado Pastor Eurico (da Assembleia de Deus), o governo de Pernambuco capitulou e o secretário divulgou nota, lamentando o fato e comunicando que a peça está suspensa.

Desde então, artistas se reúnem para decidir o que fazer, cogitando a possibilidade de protesto e até boicote ao festival. De antemão, abriram página de financiamento coletivo para tentar viabilizar a vinda da peça para Garanhuns de forma independente. O link para contribuição é https://www.catarse.me/rainhajesus.

Embora tivesse afirmado, na última sexta-feira (29), que “o FIG é um espaço de liberdade” e que esperava que a polêmica não fosse estopim para a intolerância, pois era “contra qualquer censura e a apresentação se daria num espaço restrito, às 23h, para um público adulto”, Marcelino Granja, voltou atrás com a nota, que em um trecho diz que a apresentação foi cancelada “diante da polêmica causada pela atração e da possibilidade de prejuízos das parcerias. O FIG foi criado para unir e divulgar nossas expressões culturais e não para dividir e estimular a cultura do ódio e do preconceito. O Governo de Pernambuco também repudia todas tentativas de exploração eleitoreiras do episódio”.

O secretário de Cultura não falou mais com a imprensa, se limitando a resumir que “a nota diz tudo”.

A peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” é estrelada pela atriz transexual Renata Carvalho, que faz uma releitura de Jesus como se ele vivesse nos dias atuais como uma travesti. “É a quarta vez que sou censurada”, lamentou Renata à Folha de Pernambuco. Ela rememorou que a peça foi impedida de ser apresentada, por ordem judicial, em Jundiaí (SP) e em Salvador (BA), e foi suspensa por ordem de governantes “ligados ao fundamentalismo religioso” no Rio de Janeiro e, agora, em Garanhuns.

“As transexuais existem e querem deixar de morrer. As pessoas não entendem que a censura que experimentamos é um processo muito maior e mais grave, este momento político que não aceita a laicidade em nosso País é assustador”, apontou. Renata analisou a questão, afirmando que o que causa ódio nas pessoas é a construção social e a imagem criminalizada da travesti.

“Somos censuradas pelo Estado desde antes da ditadura militar. Estamos lutando para ser consideradas seres humanos, pela representação das pessoas trans. Queremos que nossos corpos possam ser incluídos nos espaços de poder, porque é esse convívio e essa exposição que vão aos poucos trazer a naturalização e a igualdade”, denunciou. A ideia da peça é mostrar que Jesus pode estar presente entre os marginalizados. “É censura prévia, pois nenhum desses detratores assistiu à peça”, disse a atriz.

Políticos como Pastor Eurico e Joel da Harpa vêm usando as redes sociais para declarar que “Jesus é Rei e não rainha” e reafirmar que é preciso impedir a “profanação ao nome e senhoria de nosso Jesus”. Nas redes sociais e WhatsApp circulam vídeos de cunho religioso condenando a obra, enquanto artistas criticam a suspensão e buscam alternativas.

Briga política
“Vejo essa situação da pior maneira possível. O problema é que isso é uma briga política. O governo estadual não quis se queimar com o segmento evangélico num ano de eleição. É um caso para intervenção do Ministério Público, porque foi tudo feito da forma legal, com edital, curadoria, seleção de projetos. É triste ver a arte ficando à mercê de brigas políticas e retaliações”, criticou a presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão de Pernambuco (Sated-PE), Ivonete Melo.

Para o diretor do Festival Estudantil do Agreste (Feteag), Fábio Pascoal, “a grande lição de toda essa história é a percepção da dificuldade que o Estado tem em agir como executor de ações culturais. Eles acabam atuando com um viés político partidário e não pensam nas políticas públicas”, destacou.

Via Folha PE

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