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Dia que Nazaré colocou Lampião para Correr

Por: em 18/02/2020 às 21h55 atualizado em 18/02/2020 às 21h55

No dia 17 de fevereiro de 1926, estava Antônio Gomes Jurubeba em sua Fazenda Genipapo , quando o primo Fortunato Ferraz Nogueira (Fortunato do Pico) chegou apressado numa burra para dizer-lhe que os Revoltosos haviam atacado a cidade de Betânia, Sertão Pernambucano.

Antônio Gomes Jurubeba

O velho Gomes tomou a providencia de tirar objetos de valor de dentro de casa e esconder no mato, como também transferir a família para a casa do amigo Antônio Lorota, que era um pouco mais afastada da sua. Logo após, Gomes Jububera se dirigiu ao povoado de Nazare do Pico acompanhado do filho Manoel Gomes de Lira e o genro Abel Thomaz Ferraz Nogueira. “Ali chegando, Gomes ficou seriamente preocupado, por não ter encontrado a guarnição em defesa do povoado”, lembrou o filho dele, João Gomes de Lira. Estando ele no povoado, o terror foi ainda maior quando João Lopes de Souza Ferraz (primo legítimo do coronel Luiz Gonzaga, assassinado em São José do Belmonte) avisou que a Coluna Prestes vinha acompanhada do bando de Lampião. Todos abandonaram o povoado. Mulheres correram com crianças em plena caatinga e alguns homens preocupados foram atrás de encontrá-las, ficando assim o povoado abandonado.

Casa de Abel Thomaz, na Fazenda Jenipapo, incendiada por Lampião

No intuito de reunir os nazarenos de volta ao povoado, Gomes Jurubeba tomou a iniciativa de deflagrar vários tiros de rifle para o alto acompanhados de gritos. Foi pior. Muitos se afastaram ainda mais lamentando no pensamento que ‘os Revoltosos e Lampião já estavam queimando Nazaré’. Depois de um tempo, o barulho dos tiros silenciaram. Alguns nazarenos então foram se aproximando para ver o que ‘Lampião tinha queimado em Nazaré’, mas para surpresa de todos, encontraram foi o velho Gomes Jurubeba com raiva chamando todos de volta. Não demorou e chegaram de volta ao povoado os nazarenos Odilon Flôr, Aureliano Nogueira, Antônio Capistrano, Afonso Nogueira (irmão de Manoel Neto que na ocasião estava ferido em tratamento), João Jurubeba (irmão de David Jurubeba), José Flôr, Eloi Jurubeba, Militão Jose dos Santos (pai de David Jurubeba), Vicente Grande, Aureliano Francisco de Souza, João Terto, entre outros, que ficaram em defesa do povoado.

Casa de Antônio Gomes Jurubeba, na Fazenda Genipapo, incendiada por Lampião

Nada de Coluna Prestes e nada de Lampião chegar. Dormiram e no dia seguinte (18 de fevereiro), Gomes Jurubeba foi em sua fazenda (5km do povoado) olhar a família, quando chegou o amigo Zé Rosa e avisou que voltasse a Nazaré que os Revoltosos estavam chegando. Retornou e nada deles chegarem. A Coluna Prestes passou com destino a vila de São Francisco, em Serra Talhada-PE, não atacando o povoado.

Estava tudo calmo até que de repente começou uns estrondos. O bando de Lampião chegou na Fazenda Genipapo – que estava abandonada sem ninguem – e começou a tocar fogo na casa e matar todo o criatório do terreiro. Foram 48 cabeças de gado, matou bodes, porcos, galinhas e até um papagaio de estimação. Só se salvou o oratório, que Lampião retirou e colocou embaixo de uma quixabeira. Depois queimaram também as casas de Abel Thomaz, de Alexandre Xandú e de Zeca Lopes , três genros de Antônio Gomes Jurubeba. “Lembro-me que, naquele dia, foi um grande suplício, pois eu tinha 13 anos e fui também vitima do episodio, quando ouvir Inês (tia) dizer: – Lampião queimou o Genipapo. Vai-se os anéis e ficam os dedos”, relembrou João Gomes de Lira.

Odilon Flôr, Euclides Flôr, Manoel Jurubeba e Pedro Thomaz

Próximo ao povoado na Fazenda Lagoa do Bom Nome, Aureliano Sabino chegou para avisar ao fazendeiro João de Souza Nogueira (João Flôr). Juntou ele a família e veio para a casa das irmãs Izadora e Sérgia Flôr no lugar chamado Boião, menos de 1km para Nazaré.

Diante deste ataque de Lampião, os nazarenos mandaram avisar aos soldados Euclides Flôr e David Jurubeba que estavam em São João dos Leites, 84km de distancia, que ao saberem pediram ao Tenente Optato Gueiros para seguir para a terra natal. Liberados, partiram Euclides Flôr, David Jurubeba, Manoel Jurubeba, João Domingos Ferraz, Hercilio Nogueira e Pedro Gomes de Lira. Foi quase um dia todo de viagem. Somente de noite chegaram na Fazenda Ema, 6km para o povoado, onde ouviram os tiros e a fumaça do incêndio queimando as casas da Fazenda Genipapo.

E após queimar todos as casas, Lampião saiu e resolveu ir dormir com seu bando na casa de Pedro Gregório Ferraz Nogueira (pai de Neco de Pautilia), na Fazenda Ipueira, onde passou a noite preparando o ataque ao povoado no dia seguinte. (Continuar….)

Por Luiz Ferraz Filho, Pesquisador.
Via Cariri Cangaço

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