Em julho de 2013, 250 milhões de pessoas utilizavam o WhatsApp, aplicativo que permite trocar mensagens pelo celular incluindo fotos, vídeos e áudios sem pagar por SMS. Sete meses depois, o número de usuários já tinha aumentado para 450 milhões.
A rapidez com que o aplicativo se difundiu superou o crescimento do Facebook, fazendo com que Mark Zuckerberg, presidente e co-fundador darede social, comprasse o WhatsApp por US$ 16 bilhões. Atenta à propagação do software e de todas as mudanças sociais que ele tem provocado desde a sua criação em 2009, a jornalista Lívia Assad de Moraes decidiu estudar o programa.
Com o projeto “Identidades móveis: sociabilidade e mediações tecnológicas na era da comunicação instantânea”, ela passou em segundo lugar na turma de pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Região Metropolitana do Rio — em turma anterior no mesmo mestrado, a aluna Mariana Gomes passou em segundo lugar com o projetobaseado na cantora Valesca Popozuda.
Em seu trabalho de pesquisa, Lívia Assad utiliza, além do WhatsApp, outros dois programas: o Facebook Messenger – versão para celulares – e o Skype móvel – também na versão mobile.
“A popularização muito rápida desses aplicativos gerou uma necessidade de estudar o que eles modificam na vida dos usuários. Parto do pressuposto de que servem para mudar as formas de sociabilidade, convívio, trocas de experiência e de comunicação. São softwares que se diferem de formas tradicionais, até mesmo do MSN, que usávamos no computador, do SMS, das ligações, porque essas novas mídias têm a velocidade como diferença. As pessoas estão conectadas o tempo inteiro independente de sua localização física”, explicou Lívia, acrescentando que encontrou uma pesquisa cujo resultado aponta que 72% dos usuários do WhatsApp acessam o programa ao menos uma vez ao dia.
Lívia observa a questão da sociabilidade a partir da “forma ultra veloz desta tecnologia que altera o lazer, os hábitos culturais, os costumes e a vida escolar dos usuários”. A estudante também investiga o conceito de territorialidade sob a perspectiva da utilização do software, analisando a possibilidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo – o espaço real e o espaço virtual. “Observo a relação desses usuários com o espaço físico e o que é estar presente. As pessoas podem estar em um lugar conectadas a outra realidade [simultaneamente]”, detalhou.
É o caso do corretor de seguros Carlos Eduardo da Veiga Cabral, de 29 anos. Ele, que se diz um “viciado em WhatsApp”, utiliza a ferramenta desde 2011 e garante que às vezes fica em “dois lugares ao mesmo tempo”. “Dá para dividir a atenção na maioria das vezes. Quando o assunto fica interessante no WhatsApp, me concentro ali”, disse ele que diminuiu o número de ligações telefônicas desde que baixou o aplicativo, por conta da gratuidade e porque pode selecionar com quem falar em determinado momento.
José Guilherme Fuks acabou de reformar o seu apartamento. Ele utilizou o WhatsApp para entrar em contato com prestadores de serviços. O agendamento da instalação da persiana, o diálogo com a empresa do ar condicionado e até o contato com o porteiro do edifício – que o avisa quando as correspondências chegam – estão no aplicativo do corretor de imóveis.
“É muito bom, me ajuda muito. Mando as fotos da reforma para quem teminteresse no apartamento. Compartilho os links com os móveis – como o sofá que comprei pela internet – com amigos. Uso com cuidado para não ser invasivo, mas é ótimo”, disse.
Para a pesquisadora, os aplicativos de mensagem instantânea para celulares contribuem para diminuir a importância da localização física e geográfica fazendo com que o estar presente deixa de se limitar ao estar presente fisicamente.
Outro ponto levantado pela pesquisa é a reconfiguração dos laços entre as pessoas. “Você passa a ter um contato, às vezes, mais frequente com alguém. Pode falar com a pessoa todos os dias e vê-la raramente. Mas o que vou investigar é se a profundidade é a mesma do contato face a face”, contou Lívia ao G1.
A estudante de biologia Vivian Velloso, de 27 anos, utiliza o programa há aproximadamente um ano e relatou que ele serviu para reaproximá-la de amigos antigos e manter os novos. “Abriu um leque de pessoas. Depois que comecei a usar, ficou mais fácil combinar, conversar com meus amigos. Deu uma proximidade dos que estavam muito longe, fora que ficou muito mais barato falar com qualquer um via WhatsApp”.
A autora do projeto disse ainda que desde quando o escreveu – há nove meses – até ingressar no mestrado – em março deste ano, muita coisa mudou. “A gente está falando de coisas que se modificam o tempo inteiro. O quadro está muito complexo desde que comecei. É um avanço muito rápido que a academia precisa estar atenta, porque isso com certeza traz interferências no modo de se relacionar”, concluiu Lívia Assad.
(Fonte: G1)






