RIO – A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Avenida Itaoca, no Complexo do Alemão, permanece fechada e sem previsão de reabertura. Funcionários ainda recolhem cacos de vidro das janelas apedrejadas na madruga desta terça-feira por moradores da região. A Clínica da Família Zilda Arns e o centro de atendimento social funcionam normalmente, apesar de algumas janelas também terem sido destruídas. A Secretaria municipal de Saúde ainda não se pronunciou sobre o episódio. O clima no entorno destas unidades é de aparente tranquilidade.
A unidade de saúde foi destruída por um grupo de pelo menos 20 pessoas, numa ação de pânico na noite desta segunda-feira. A depredação aconteceu depois de confrontos entre policiais militares e traficantes que ainda atuam na localidade. Funcionários da unidade de saúde relatam momentos de desespero. Durante a ação criminosa, cinco pacientes estavam internados, duas crianças e três adultos. Eles foram transferidos para outras unidades.
— Todo dia é uma represália. Nós sempre somos ameaçados aqui. Ninguém aguenta mais. É por isso que não tem médico. Nós saímos de casa e nos despedimos da família, pois não sabemos se vamos voltar — relatou um enfermeiro que preferiu não se identificar.
Durante a madrugada desta terça-feira, a Polícia Civil fez uma perícia no local. Os agentes apreenderam pedaços de pau, barra de ferro e uma batata com vários pregos cravados. Adílson Luz, de 21 anos, foi preso em flagrante e reconhecido pelos enfermeiros por ter participado da depredação. Um menor, de 15 anos, também foi detido. Segundo o delegado adjunto da 22ª DP (Penha), Carlos Eduardo Rangel, eles não tinham passagem pela polícia.
De acordo com as primeiras informações, a investigação indica que o grupo que invadiu a UPA do Alemão era formado por moradores da comunidade. Os integrantes, no entanto, não possuíam relação com a facção criminosa que atua no local. Apesar disso, o delegado não descarta a hipótese de que essas pessoas poderiam ter sido coagidas por traficantes. As ações violentas da noite desta segunda-feira também deixaram quatro ônibus incendiados e, de acordo com o delegado, a prisão de dois traficantes – Eduardo Procópio, conhecido como Piná; e Ramirez Roberto da Silva, que comandavam o tráfico de drogas no Alemão – feita na última semana, pode ter sido a motivação para os ataques.
— Hoje, a facção criminosa que atua no Complexo está acéfala e isso pode levar a uma instabilidade local — disse Rangel.
Durante a confusão, a Estrada do Itararé ficou interditada ao tráfego por cerca de seis horas. O patrulhamento na região foi ostensivo durante toda a madrugada e permanece nesta manhã.
Jovem leva tiro de fuzil ao tentar proteger mototaxista
O repositor de supermercados, Carlos Alberto de Souza Marcolino, de 20 anos, foi atingido por um tiro de fuzil durante o confronto entre policiais e bandidos na noite desta segunda-feira. Segundo a família do jovem, ele não participava da manifestação, mas, assustado com os barulhos, resolveu saber o que estava acontecendo. Quando notou que tiros vinham na direção de um mototaxista, tentou protegê-lo e acabou sendo atingido.
— Ele estava no lugar errado e na hora errada. Bala não tem direção — afirmou, abalada, a prima Rosilene Souza.
A bala ficou alojada no pulmão de Carlos, que passou por uma cirurgia no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, durante a madrugada, e não há informações sobre seu estado de saúde.
Na porta do hospital, a mãe, revoltada, criticou a falta de assistência por parte dos policiais militares. Ao ser atingido, Carlos Alberto foi levado para a UPA e, segundo Sueli Edite de Souza, ele esperou cerca de quatro horas até ser encaminhado ao Getúlio Vargas.
— Não tivemos assistência dos policiais. Eles ainda nos trataram muito mal, com xingamentos. Meu filho ficou jogado no chão — contou Sueli, enfatizando que o jovem é trabalhador e pai de um menino de três anos.
Carlos Alberto não foi reconhecido pelos funcionários da UPA como sendo um dos criminosos que destruíram a unidade. O delegado Carlos Eduardo Rangel afirmou que, de acordo com as circunstâncias apresentadas, não há indícios de associação dele à organização criminosa. Essa investigação será conduzida pela 45ªDP (Alemão).
Segundo dia de violência
Este foi o segundo dia consecutivo de violência no Complexo do Alemão. No domingo, Alzira Bezerra das Chagas, de 72 anos, morreu após ser atingida por um tiro quando policiais militares e traficantes se enfrentavam na comunidade. Dalva, como era conhecida, tinha saído de casa para levar um sobrinho até a residência dele. O corpo da idosa será enterrado nesta terça-feira, às 13h, no Cemitério de Inhaúma, na Zona Norte. O velório ocorre na Capela de Santa Rita de Cássia. Após a morte da idosa, moradores bloquearam a Estrada do Itararé, nos dois sentidos, por cerca de cinco horas. Durante a manifestação, houve confusão e homens do Batalhão de Choque (BPChoq) reagiram com bombas de efeito moral.
(Fonte: Jornal O Globo)







