Erick David deveria estar no ventre da mãe. Nasceu prematuro. Em meio a uma pandemia que lhe afastou precocemente do útero. Seu nascimento se deu em 4 de abril, quando médicos resolveram retirá-lo do ventre da fisioterapeuta Viviane Albuquerque, 33 anos. Ela não resistiu à Covid-19. Morreu no dia seguinte, entrando para as estatísticas como a primeira gestante vítima da doença no estado.

Erick completou um mês de vida do lado de fora do útero. No domingo, recebeu alta do hospital particular onde estava. Agora, o bebê segue sob os cuidados da família. E conta com muita solidariedade. Duas mulheres estão doando leite materno para fortalecer Erick. Uma delas é amiga de Viviane. A outra é Michele Maximino, 38, moradora de Quipapá e considerada uma das maiores doadoras de leite materno do Brasil. Em meio à pandemia, a história de Erick nos faz lembrar sobre a necessidade da continuidade das doações do líquido precioso.
Michele soube da necessidade de Erick através de ex-alunos do marido, que ensinou em uma escola pública perto de onde a fisioterapeuta morava. Mãe de quatro filhos, a mais nova, uma menina com três meses, Michele tem leite materno sobrando. Já doou duas vezes para Erick, uma enquanto o bebê estava na Unimed e outra quando ele já estava em casa, sob os cuidados da avó materna, Sílvia Castro de Albuquerque, 54. “Gosto muito de doar. Sinto que estou salvando os bebês. Imagina você salvar vidas?”, comentou. Ao todo, o bebê recebeu nas duas ocasiões quase 16 litros.
Michele costuma doar sua produção de leite para a Maternidade Jesus Nazareno, em Caruaru, mas abriu exceção para Erick. “O pessoal do banco de leite comentou que em Caruaru somente eu tenho doado. As mães estão com medo de ir por conta da doença.” Por conta da grande quantidade do líquido disponível, a equipe do Jesus Nazareno vai até à casa de Michele, em Quipapá, para fazer a coleta.
O pai do bebê, o empresário Erick David Dias da Silva, 42, tem dividido com a avó materna os cuidados com o filho. “Tenho três filhas de outro relacionamento, com 21, 18 e 8 anos, mas essa é uma experiência nova para mim, da forma como aconteceu. É muito doloroso o falecimento da mãe dele. Sinto um misto de sentimentos. Alegria por ele estar bem e tristeza por Viviane não estar mais entre nós.”
Erick pede às pessoas que separem vidros com tampas plásticas e de rosca – como os de café solúvel – para doação. Os vidros são usados para armazenamento do leite materno. O líquido doado ao bebê Erick está sendo pasteurizado no Imip. Quem quiser doar o material pode acessar os números: 99873.4027 ou 98467.1574. Em nota, o Imip informou que o Banco de Leite da unidade de saúde continua recebendo doações e reforça a necessidade do gesto. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda não há comprovação científica de transmissão do novo coronavírus pelo leite materno. “A recomendação da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano é que a amamentação seja mantida, já que o alimento protege o bebê de diversas doenças e reforça o sistema imunológico, inclusive em caso da mãe estar contaminada pelo novo coronavírus, se for o seu desejo e estiver em condições clínicas adequadas. As interessadas em doar, precisam estar sadias, alimentando o próprio filho e aptas para a doação. Para tirar dúvidas, basta ligar para o Banco de Leite do IMIP através dos telefones 2122-4719 ou 2122-4103”, diz a nota do Imip. Viviane estaria com nove meses de gestação no final deste mês. “Depois que saiu do hospital, meu filho já alcançou os dois quilos, cerca de 100 gramas a mais. Antes tomava 40 ml de leite e agora toma 50 ml. O leite doado pelas duas mulheres poderá abastecer o bebê por uns cinco meses”, calcula o empresário.
Erick visita o filho todos os dias, à tarde. O bebê conta com os cuidados diretos do pai, da avó materna e de uma sobrinha de Viviane. Ambas moravam com a fisioterapeuta.
Via Diário de Pernambuco





