Entre os Municípios do interior de Pernambuco, que no passado eram considerados tranquilos, passaram a ser assombrados pela violência. Levantamento feito pela coluna Ronda JC, com base nas estatísticas da Secretaria de Defesa Social (SDS), revela que 14 cidades registraram recorde histórico de assassinatos no ano passado. Esse resultado leva em consideração os registros dos últimos 17 anos, quando o governo do Estado passou a somar as mortes violentas.
Além disso, o tráfico de drogas e os crimes de proximidades (como discussão de bar ou desentendimento entre vizinhos ou até familiares) estão entre as principais motivações dos homicídios na maioria das cidades onde houve o aumento recorde.

A Trem-Bala é uma facção forte em Ipojuca, na Região Metropolitana do Recife. Lá, desde 2018, a polícia faz operações para prender criminosos ligados ao grupo, que é conhecido por ser bastante violento e por torturar inimigos até a morte. Em algumas situações, as vítimas da facção foram obrigadas a cavar as próprias covas onde foram enterradas após serem mortas. Em 30 de outubro do ano passado, cinco suspeitos foram mortos durante confronto com a polícia em uma usina na cidade de Escada. Na ocasião, armas e drogas foram apreendidas.
Já em Chã de Alegria, na Mata Norte, vive situação semelhante. Cidade pacata, saltou de 5 mortes em 2019 para 12 no ano passado. Percentualmente, um aumento de 140%. O delegado seccional da região, Guilherme Mesquita, reforçou que o crime organizado também avançou no município. “São grupos bem estruturados, que disputam território e matam aqueles que são considerados os inimigos. É difícil a investigação, porque eles constroem células criminosas nas cidades e migram para outras, dificultando o trabalho da polícia. Mas fizemos trocas de delegados, colocamos alguns mais proativos para a realização de operações de repressão qualificada”, afirmou.
Em Alagoinha, no Agreste, são os crimes de proximidade que preocupam a polícia. O município, em 2019, não registrou mortes violentas. Já no ano passado, foram oito. Uma das vítimas foi Ademilton Cordeiro dos Santos, de 65 anos. Ele foi assassinado a tiros depois de discutir com um homem, na zona rural.. A investigação do crime, ocorrido em 10 de março de 2020, ainda não foi concluída. E o autor segue sem punição. A Delegacia de Alagoinha não está com delegado exclusivo. Ele acumula três municípios ao mesmo tempo, segundo policiais civis.
Durante três dias, a reportagem tentou, insistentemente, contato com delegados de municípios como Belém de Maria, Cortês, Custódia e Camutanga. São localidades que também contabilizaram recorde histórico de homicídios. Mas em nenhuma delas, os delegados estavam nas delegacias, segundo os agentes.
Na cidade de Palmares, Cortês e Manari, por exemplo, nenhum dos números de telefone das delegacias foi atendido quando a reportagem ligou, em horário comercial, entre a segunda e quarta-feira. Vale lembrar que esses números fazem parte da agenda que fica disponível no site oficial da Polícia Civil de Pernambuco para a população.
Para a socióloga e coordenadora executiva do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), Edna Jatobá, reforça que é preciso um olhar mais atento para o interior. “A criminalidade é como uma nuvem. Não fica em um lugar só. Desde 2014, a violência letal foi se desconcentrando da Região Metropolitana. Esse aumento dos homicídios não é só culpa de facções no interior. É preciso observar o contexto de cada município, saber como está a rede de proteção contra a violência doméstica nas pequenas cidades, por exemplo. Uma cidade que teve oito mortes e, no ano anterior, não teve nenhuma, como Alagoinha, é preocupante”, avaliou.
Lista dos municípios com recorde de assassinatos em 2020:
Alagoinha – 8
Belém de Maria – 10
Camutanga – 6
Chã de Alegria – 12
Cortês – 12
Custódia – 18
Escada – 70
Jurema – 13
Manari – 9
Palmares – 49
Paranatama – 7
São José do Egito – 10
São Vicente Ferrer – 18
Tabira – 13





