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Primeira capital em Lockdown tem ruas lotadas e muito trânsito

As cenas vistas nos últimos dias em algumas partes de São Luís não são o que se esperaria da primeira capital do país a entrar em lockdown.

Por: em 09/05/2020 às 10h47 atualizado em 09/05/2020 às 10h49

Feiras lotadas. Aglomerações nas ruas. Trânsito intenso. As cenas vistas nos últimos dias em algumas partes de São Luís não são o que se esperaria da primeira capital do país a entrar em lockdown.

Para evitar o colapso do sistema de saúde local, onde a ocupação das unidades de tratamento intensivo da rede estadual atingiu 100% no fim de abril, a Justiça determinou que a cidade e outros três municípios da sua região metropolitana adotassem na última terça-feira (5/5), por dez dias, medidas mais rígidas para reduzir a propagação do coronavírus.

Entre elas, a proibição de circulação de veículos particulares, a não ser para comprar alimentos ou atendimento médico, a entrada e saída de veículos da ilha e o fechamento de qualquer comércio não essencial.

A adesão ao isolamento foi de 55,4% no primeiro dia de lockdown e caiu desde então, para 54,1% no segundo dia e para 53% no terceiro, de acordo com a empresa In Loco, que criou um índice baseado nos dados de geolocalização de 60 milhões de celulares do país.

Isso é mais do que a média de 47,1% que a cidade registrou em dias úteis da semana imediatamente anterior. São Luís também atingiu pela primeira vez em dias de semana um nível de isolamento que a cidade só conseguia obter em domingos e feriados.

Mas os dois primeiros dias de lockdown não bateram os recordes de adesão registrados pela capital maranhense desde que o governo estadual decretou as primeiras medidas de isolamento, em 21 de março. Desde então, houve sete dias com índices melhores, entre 55,8% e 57,6%.

E o patamar atual não é o bastante para controlar a epidemia, diz o epidemiologista Antonio Augusto Moura da Silva, professor do departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

“Qualquer ganho é um ganho, mas não é o que a gente queria. Não é o ideal”, diz Silva.

O epidemiologista explica que o índice teria de ser de cerca de 70% para fazer com que o número de novos casos pare de crescer e comece a cair.

Isso porque a taxa de contágio, que aponta quantas pessoas alguém que está contaminado pode infectar, era de 3 no início da pandemia no Maranhão, de acordo com um estudo do Imperial College de Londres.

Para que o número de novos casos passe a cair, é preciso que essa taxa seja menor do que 1. No caso maranhense, isso significa que a taxa teria de ser reduzida em mais de dois terços, e, para conseguir isso, a redução do contato social deve ocorrer na mesma proporção. Em outras palavras, o isolamento deve ser de 70% ou mais, afirma Silva.

O virologista Anderson Brito, do departamento de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, aponta que um estudo realizado pela Universidade de Sydney, na Austrália, vai ao encontro dos números citados por Silva.

Essa pesquisa calculou o impacto do isolamento sobre a epidemia local e indicou que, para a prevalência da covid-19 começar a cair no país, seria preciso uma adesão de 80%.

“Guardadas as devidas diferenças entre o Brasil e a Austrália, é esse o patamar que nos apontam as evidências científicas. Então, São Luís precisaria de uma adesão maior para de fato eliminar as cadeias de transmissão”, afirma Brito.

A BBC News Brasil procurou as secretarias municipal e estadual de Saúde para comentar os resultados do lockdown, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Isolamento desigual
Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), diz que os índices de São Luís com o lockdown são uma “vitória”, porque terão algum efeito.

Mas ele avalia que eles são insuficientes, porque a literatura científica aponta que isso até agora que é preciso ter ao menos 70% de isolamento.

“Essa diferença de 15% entre o que a cidade conseguiu e o ideal pode parecer pequena, mas tem muito impacto porque lidamos com um patógeno muito contagioso.”

O virologista explica ainda que, além da média geral do isolamento, também é preciso analisar como isso ocorreu em diferentes partes de uma cidade.

“O lockdown se mostrou uma estratégia bastante adequada e talvez seja a única completamente efetiva para evitar a disseminação do vírus hoje, mas, se apenas uma parte da população se isola, o vírus continua a circular e a criar focos de contágio”, diz Spilki.

As pessoas destas regiões onde o coronavírus segue sendo transmitido irão para outras áreas e levarão a doença com elas, fazendo com que haja novas ondas de contágio depois de algum tempo.

Anderson Brito diz que um dos piores cenários possíveis é fazer um lockdown, mas não haver uma adesão em massa da população.

“Isso cria a sensação de que algo está sendo feito, mas não está dando resultado. Mas só vai dar resultado se as pessoas aderirem”, diz o virologista.

Então, só será possível ver os resultados dos novos níveis de isolamento sobre os índices de casos, mortes e ocupação de leitos daqui a três ou quatro semanas semanas ao menos.

“Por isso, é necessário não só contar com a adesão da população, mas também com a confiança da população de que isso está dando certo”, afirma Brito.

Vulnerabilidade social

O epidemiologista Antonio Augusto Moura da Silva diz quem um dos maiores obstáculos para a cidade ter índices de isolamento maiores é a vulnerabilidade social da população do Maranhão.

O Estado tem a maior proporção da população vivendo em situação de pobreza, segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): 54,1% dos 6,8 milhões de maranhenses vivem com menos de R$ 406 por mês.

Além disso, o Maranhão tem o maior percentual do país de trabalhadores informais — são 64,9% dos trabalhadores ocupados, segundo dados de 2018.

“A gente já desconfiava que a gente não ia conseguir manter todo mundo em casa. Não porque as pessoas não querem aderir. Mas porque é difícil para elas fazer isso porque precisam sair de casa todo dia para ganhar dinheiro. Para fazer o lockdown, teria que ampliar o programa do governo de auxílio emergencial para atingir o maior número de pessoas possível. Sem uma coisa ou outra, elas vão passar fome”, diz Silva.

Esse é caso da empregada doméstica Maria Barros, de 51 anos. Ela está há quase um mês sem trabalhar e já gastou todo seu último salário anterior para quitar o aluguel e as contas e abastecer a despensa.

Seu filho também não está conseguindo trabalho como pedreiro e ele não sabe se vai conseguir ganhar algum dinheiro para passar o mês que vem.

Socorro está na mesma situação. Ela estava em regime de experiência na casa onde trabalha e não tem ainda carteira assinada. Por isso, não tem qualquer garantia de que receberá o próximo salário.

“Eu quero ficar em casa, mas, se a minha patroa não me pagar, eu vou ter que sair. Precisa entrar pelo menos R$ 100 para comprar comida.”

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